Relato de vivência entre escolas estaduais do Vale do Ribeira em comunidades caiçaras de Iguape/SP

Paulo Cesar Franco1

 

Nos dias 8 e 9 de dezembro, estudantes, professores e equipe gestora da escola estadual Ver Alay José Correa, município de Registro, realizaram vivencia comunitária nas comunidades da Vila Nova, “pequena comunidade lagunar situada na extremidade norte do sistema estuarino-lagunar Iguape-Cananeia, a sudoeste do Estado de São Paulo” (CAVANAGH, 2005, p.147) e Barra do Ribeira2 com objetivo de compartilhar e vivenciar o cotidiano dos pescadores artesanais das referidas comunidades caiçaras pertencentes ao município de Iguape.

O trabalho de campo começou na barragem, espécie de ponte inacabada sobre o Valo Grande que faz a ligação entre o bairro do Rocio e o Centro Histórico da cidade de Iguape. Na barragem, os estudantes tiveram a oportunidade de assistir a pesca da manjuba bem como conhecer um pouco da história de Iguape a partir do contexto histórico da localidade (A barragem do Valo Grande). 

Seguindo viagem, o grupo passou pelo centro da cidade, subiu o Morro do Cristo e chegou ao bairro de Icapara onde teve início a cidade de Iguape no século XVI. Mais adiante, na comunidade do Pontalzinho, a monitora Linara Borges conduziu o grupo até o pico do Outeiro do Bacharel ou “Morro do Farol” como é conhecido no local.

Lá do alto foi possível visualizar a Barra do Icapara, Barra da Barra do Ribeira, parte do município de Ilha Comprida, conhecer um pouco da história do Mar Pequeno e da secular comunidade de Icapara.

Deixando o “Morro do Farol”, a monitora levou o grupo até o porto de pesca na comunidade do Pontalzinho, sopé do Outeiro do Bacharel, onde mostrou o “corrico” de pescar manjuba, o mangue e outros tipos de redes de pesca apropriada para o rio e o mar.

Do Pontalzinho, o grupo seguiu para a comunidade da Vila Nova, localizada na foz do Mar Pequeno, onde foi servido o almoço na Cozinha Caiçara da Marilia que teve no cardápio a manjuba frita, mandioca e outras delícias da culinária caiçara.

No período da tarde, Linara finalizou a monitoria na Vila Nova com um bate papo à margem do Mar Pequeno ao lado do pescador, Rubens Franco, que além de mostrar a rede “Britânia” também relatou seu cotidiano de pescador no Mar Pequeno.

No caminho para a Barra do Ribeira, o professor de filosofia, Paulo Cesar Franco, mostrou uma fábrica de barcos de fibra onde explicou sobre o processo de substituição das canoas de um tronco só por barcos de fibra tendo em vista a questão da restrição ambiental que dificulta as comunidades caiçaras em manter a tradição, mas também apontou as facilidades do barco de fibra tanto na questão da aquisição como também na durabilidade.

Na comunidade do Sinal, parada necessária onde se faz a travessia de balsa para a Barra do Ribeira, os estudantes tiveram novamente a oportunidade de conhecer mais um local onde se pratica a pesca da manjuba e também de se localizar geograficamente nas proximidades da foz do Rio Ribeira de Iguape.

Saindo da Balsa, o veículo adentra a Vila da Barra do Ribeira e se movimenta pela estreita avenida do bairro. Talvez uma definição certeira da localidade seja dada pela pesquisadora Alik Wunder, quando disse:

Uma balsa faz a travessia e por ela avistam-se o mangue que margeia o rio, os maciços da Juréia ao fundo, um horizonte confuso de junção de rio com mar e o porto da vila. Os barcos descansam atracados, coloridos, alguns homens pescam, gaivotas movimentam-se, todos na mesma mansa sintonia. As embarcações são as únicas maneiras de entrada na vila. A balsa é a passagem principal. Ela nos deixa no pequeno centrinho comercial. Os bares, lojas, pequenos restaurantes abertos estão desertos a espera de turistas. Tudo parece estar à espera. Há um vaguear lento dos homens pelas ruas, há poucos turistas e não é época de muitos peixes. Ao sair da Balsa já estamos na rua principal da vila que, em quinze minutos de caminhada, nos leva ao mar (WUNDER, 2002, p.44).

Pelo caminho que leva ao mar, passando pelo centrinho pouco movimentado, que Wunder observa em 2002, o ônibus estaciona em Frente à escola estadual Sebastiana Muniz Paiva e os estudantes não resistem ao gramando que se apresenta acolhedor as suas frentes. É inevitável um rápido futebol para relaxar os músculos…

No cair da tarde, um lanche para repor as energias foi servido no pátio da escola e contou com a presença carinhosa e acolhedora da diretora Zuleica.

Conforme a programação, depois da acolhida da diretora e lanche, o grupo deixou a escola e foi conhecer e acomodar as malas na pousada Querubim. Mais tarde, por volta das 18h30, retornaram a escola para o jantar e para o encontro comunitário que teve início às 20h.

Com a presença de dois fandangueiros, mestre Cleiton do Prado Carneiro e o tocador de fandango, Pedro Sardinha do Prado, ambos integrantes da Associação dos Jovens da Jureia-AJJ, e outros participantes da comunidade, aconteceu uma roda de conversa onde foi possível compartilhar várias experiências a respeito dos saberes local e também sobre o fandango caiçara.

Pedro falou sobre sua experiência como caiçara que cresceu na AJJ e continua aprendendo com a luta das comunidades tradicionais caiçara da Jureia pelo direito de viver no território de origem. Contou também sua experiência com o fandango e sua opção por ser tocador de fandango e manter a cultura caiçara pulsando no cotidiano das famílias da Jureia.

Cleiton, falou de sua experiência com o fandango e principalmente seu oficio na construção de rabecas e viola branca, instrumentos originais do fandango caiçara. Durante sua fala, o mestre tocou varias modas de fandango enfatizando a questão da composição das modas fandangueiras que abordam a realidade caiçara local.

No dia 9, após o café da manhã, mestre Cleiton e seu filho Alan, monitoraram o grupo até a sede da AJJ onde puderam contar um pouco da história da entidade, sua fundação e objetivo diante do conflito instalado em 1986, ano da criação da Estação Ecológica, quando mais de 300 famílias caiçaras foram expulsas de suas casas sem direito a nada.

Ainda na sede da AJJ, Glória do Prado Carneiro, (Glorinha), falou sobre o “Criqué Caiçara”, trabalho com artesanato de caxeta que vem sendo desenvolvido a mais de uma década pelas mãos habilidosas das mulheres caiçaras e que tem como objetivo gerar renda e promover a educação popular através da história oral, oficinas de repasse de saber e outras formas de conviver, produzir e transmitir os valores tradicionais para geração futura.

Retornando à escola Sebastiana, os estudantes, professores e equipe gestora da escola Ver Alay José Correa já demostravam um certo desgaste físico, pois os dois dias de convivência foram intensos, mas os cadernos de anotações, a mente e o próprio corpo estavam repletos de experiências potenciais que seguiram para a cidade de Registro onde se somarão ao projeto “Pescadores do Rio Ribeira”.

Quero agradecer em nome da AJJ a acolhida da escola Sebastiana Muniz Paiva, através da vice-diretora da escola da família, professora Silvia com quem iniciei o diálogo do intercambio escolar. A diretora Zuleica que nos acolheu com enorme carinho, a coordenação que nos apoiou, os funcionários que nos ajudaram, Nice, minha irmã que preparou a comida e os professores presentes. Agradecer também Cleiton, Pedrinho, Jéssica, João Pedro, Alan,Vanessa, Tata ( minha esposa) e minha filha Sophia que estiveram presentes.

A equipe gestora da escola Alay José Correa e os estudantes. De modo especial, o professor Wanderlei (Deco) com quem gestamos a ideia desse encontro cultural desde o movimento da maior greve de professores que o Estado de São Paulo já viveu.

Barrado Ribeira, 15 de dezembro de 2015.

Referências

WUNDER, Alik. “Encontro de águas” na Barra do Ribeira: imagens entre experiências e identidades na escola. Dissertação de mestrado apresentado ao programa de pós-graduação em educação da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2002.

Ivan Breton … [et al] Antônio Carlos Diegues(org.). ENCICLOPÉDIA CAIÇARA: O Olhar do pesquisador. São Paulo: Hucitec: NUPAUB-USP, 2005. v. 1.

1 Professor de filosofia na escola Sebastiana Muniz Paiva, Barra do Ribeira/Iguape e mestre em educação.

2 A Barra do Ribeira era uma pequena vila de pescadores localizada em Barra do Ribeira, no município de Iguape. O povo da Barra do Ribeira pode ser definido como povo caiçara, habitando em casas feitas de madeiras que se encontravam na praia, que encostavam no barranco quando havia maré cheia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Barra_do_Ribeira_(povoado). Acesso em 15 de dezembro de 2015.

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Sobre ajjureia

"Sou fruto da necessidade de defender os direitos, de gerar alternativas para melhoria de vida e de resgatar e divulgar a riqueza da cultura tradicional caiçara".
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4 respostas para Relato de vivência entre escolas estaduais do Vale do Ribeira em comunidades caiçaras de Iguape/SP

  1. Silvia Ikegami disse:

    É sempre um prazer incentivar e acolher um projeto tão interessante e que resgata riquezas das comunidade caiçara. Sucesso sempre a toda equipe e agradecimento ao Prof. Paulo César pelo contato.

  2. Lisângela Kati do Nascimento disse:

    Paulo, parabéns pelo relato. Foi uma delícia ler sobre as atividades que os alunos da Escola Vereador Alair realizaram. Parabéns pelo trabalho que realizaram com o professor Deco e com os demais professores! Eu quero que muitos e muitos outros alunos do Vale do Ribeira realizem trabalhos de campo como esse!!!

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