CAMINHOS FECHADOS: COERÇÃO AOS MEIOS DE VIDA COMO FORMA DE EXPULSÃO DOS CAIÇARAS DA JUREIA

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Texto será publicado em breve pelo IPDMS (Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais)

Rodrigo Ribeiro de Castro[1]

Roberto Sanches Rezende[2]

Mauro William Barbosa de Almeida[3]

Resumo

Esse artigo trata das restrições impostas sobre os Caiçaras tradicionalmente residentes na região onde hoje se encontra a Estação Ecológica Jureia-Itatins (EEJI) – chamada aqui simplesmente de Jureia –, sob administração da Fundação Florestal do Estado de São Paulo, e cujo resultado tem sido a expulsão paulatina de famílias de territórios habitados pacificamente pelo menos há 150 anos. Mostramos como a Jureia se tornou uma região de conflito social e jurídico, causado por políticas de conservação da natureza com base cientifica discutível, que desconsideram os direitos de povos e comunidades tradicionais reconhecidos pelo Estado brasileiro, e por um aparato institucional autoritário que priva os moradores de direitos básicos de cidadania, como o acesso à escola para crianças. Chamamos também a atenção para o método de expulsão lenta e gradual pela restrição do acesso aos meios de vida. Desta forma, se oculta a realidade da expulsão de comunidades de territórios tradicionalmente ocupados, e se dificulta a formação de um debate público amplo sobre a relação entre a conservação de territórios de grande importância ambiental e o futuro de comunidades que habitaram secularmente esses territórios sem prejuízo de sua integridade. Além do mais, a permanência ou não das famílias na região tem sido pautadas por decisões do estado, o qual está informado por uma corrente científica restrita que se transformou em movimento político.

Palavras-chave: meios de vida; povos e comunidades tradicionais; conflitos territoriais, conservação ambiental; caiçaras; Jureia. 

[1]          . Rodrigo Ribeiro de Castro é mestrando do Programa de Antropologia Social do IFCH-UNICAMP e membro do LATA.

[2]          . Roberto Rezende é doutorando do Programa de Antropologia Social do IFCH-UNICAMP e membro do LATA, Laboratório de Antropologia Territórios e Ambientes, grupo de pesquisa vinculado ao Centro de Estudos Rurais (CERES) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

[3]          . Mauro W. B. de Almeida é professor-colaborador (aposentado) do departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), membro do CERES e do LATA

1. Introdução

A Estação Ecológica Jureia-Itatins é uma área de cerca de 80 mil hectares entre os municípios de Iguape, Miracatu, Itariri e Peruíbe. Criada em 1986, seu objetivo é promover a conservação da natureza em uma porção importante do que restou da Mata Atlântica. Embora trate-se de uma unidade de conservação que proibe a presença humana, vivem na área famílias caiçaras cuja ocupação está registrada em registros paroquiais de terras realizados na década de 1850, e em genealogias que chegam até as famílias de hoje (Carvalho, 2010; Monteiro, 2002).[1]

Após a criação da Estação Ecológica Juréia-Itatins (Decreto n. 24.646 de 20 de janeiro de 1986 e Lei Lei Estadual 5.649 de abril de 1987), o governo do Estado de São Paulo passou a cercear o uso e acesso ao território por parte às comunidades caiçaras tradicionais, proibindo práticas tradicionais como a pequena agricultura e a pesca artesanal, e privando os moradores do acesso a serviços de educação e saúde, além de privá-los de acesso a energia elétrica e meios de comunicação e de transporte – em suma, privando as comunidades caiçaras de seus meios de vida. Esse processo de cerceamento de direitos e restrição aos meios de vida” levou ao êxodo forçado de muitas famílias caiçaras para as periferias de Iguape e de Peruíbe, intensificada a partir de 1986, e que se prolonga até hoje (Candido, 2010). Em reação a esse paulatino processo de expulsão de moradores, emergiu um movimento social de Caiçaras organizados em associações que lutam para defender seus direitos territoriais enquanto comunidades tradicionais reconhecidos pela legislação federal (Presidência da República 2007) e pela Convenção Internacional 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo governo brasileiro em 2002 (OIT 2011; MPF 2014).

O movimento social caiçara formulou uma proposta institucional para conciliar a existência da unidade de conservação com os direitos das comunidades tradicionais: a recategorização da Unidade de Conservação Integral “Estação Ecológica”, para dar lugar a um mosaico formado por Unidades de Conservação de Uso Indireto (uma Estação Ecológica e dois Parques Estaduais) e por Unidades de Conservação de Uso Direto (quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável). A proposta do movimento social caiçara utilizava-se das categorias de unidades de conservação presentes no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000). As Reservas de Desenvolvimento Sustentável abrangeriam os territórios onde se encontram a maior parte das famílias caiçaras (Figura 1).

Untitled2     Figura 1 – Proposta de recategorização da EEJI pela União dos Moradores da Jureia (ALMEIDA et al. 2013).

Essa proposta foi levada para discussão em Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em 23 de outubro de 2012, onde foi rejeitada sob forte pressão do movimento ambientalista associado à criação da Estação Ecológica. Um dos argumentos utilizados foi ecológico: a criação de quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável permitiria o retorno das famílias de Iguape e Peruíbe para suas comunidades originárias, exercendo pressão sobre o território e os recursos naturais. Outro argumento foi que seria legalmente impossível a recategorização de uma unidade de conservação de proteção integral para a categoria de uso sustentável.[2]

Observamos que o argumento ecológico não foi apoiado em nenhum estudo do suposto impacto esperado como consequência do retorno das famílias tradicionalmente residentes na área, considerando as práticas tradicionais da agricultura e da pesca caiçaras, quando inseridas em planos de uso consonantes com a sustentabilidade ambiental conforme as exigências de Reservas de Desenvolvimento Sustentável (Araújo, 2007; De Francesco, 2012; Peroni, 2004). [3]

Quanto ao argumento legal, apoiado em dispositivos do SNUC datados de 2010, reiteramos que a legislação nacional e acordos internacionais reconheceram direitos de povos e comunidades tradicionais, em particular a Constituição de 1988 (arts. 215 e 216), a Convenção 169 da OIT (Santilli 2004, OIT 2011, MPF 2014), e a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais (Presidencia da República 2007).

Na sequência deste artigo, tentaremos compreender como se implantou na Juréia o processo de expulsão de comunidades tradicionais, justificado pelo discurso ambiental, e como o Estado de São Paulo e grupos ambientalistas foram agentes desse processo de expulsão levado a cabo por administrações autoritárias. Procuraremos também ilustrar esse processo de expulsão dos Caiçaras através do negligenciamento de seus direitos, acobertado pela ausência de um autêntico debate científico que incluísse políticas de conservação da natureza em colaboração com comunidades tradicionais entre as agendas possíveis no horizonte político.

2. A Jureia enquanto problema de política ambiental

Como é que a região onde hoje se encontra a Estação Ecológica Jureia-Itatins se tornou foco de políticas ambientais no estado de São Paulo ao longo da segunda metade do século XX? Para responder a essa pergunta, Rubens Caixeta de Queiroz remonta ao começo da década de 1970, com o caso da vila de Trindade no Estado do Rio de Janeiro, onde um empreendimento imobiliário voltado ao turismo ameaçava expulsar as comunidades caiçaras (Queiroz, 1992: 68). Alguns turistas da cidade de São Paulo que frequentavam Trindade passaram a apoiar as comunidades caiçaras em sua luta pela permanência no território, orientados por uma visão da conservação da natureza que, reconhecendo o papel dos moradores tradicionais (“nativos”) na conservação do meio ambiente, ganharia vulto na década de 1980. A disputa contra a empresa que visava se instalar na vila se arrastou por anos e, em meio ao processo, foi criada a Sociedade de Defesa do Litoral Brasileiro, que organizou diversas atividades de apoio aos habitantes de Trindade, incluindo comícios, denúncias na imprensa, assessoria jurídica, e até confrontos diretos com funcionários da empresa. Como resultado dessas ações, o movimento de resistência de Trindade conseguiu evitar a instalação do projeto turístico que ameaçava as comunidades. Ao mesmo tempo, consolidou-se um movimento ecológico ligado à cidade de São Paulo, resultando na “formação de um quadro de ecologistas que participariam mais tarde de diversas entidades e movimentos e comporiam órgãos do Estado ligados ao meio ambiente” (Queiroz, 1992: 71).

Enquanto em Trindade ecologistas e comunidades locais se organizaram contra um empreendimento turístico-imobiliário, na região onde hoje se encontra a Estação Ecológica Jureia-Itatins as empresas Gomes de Almeida Fernandes e Companhia Grajaúna davam início ao planejamento e execução de um condomínio de luxo para mais de 70 mil pessoas. Assim como em Trindade, as comunidades locais sofreriam o impacto do empreendimento. Os Caiçaras dos municípios de Iguape e Peruíbe viam seus meios de vida ameaçados pela especulação imobiliária.

Contudo, ao contrário do que ocorreu no Rio de Janeiro, em Iguape e Peruíbe a resistência dos Caiçaras não foi apoiada desde o início pelo recém-criado movimento ambientalista de São Paulo, e a suspensão do projeto imobiliário não apareceu como uma vitória de Caiçaras apoiados por ambientalistas. Em vez disso, o projeto de condomínio foi barrado pelo governo militar em 1982, que desapropriou o terreno com o objetivo de instalar duas usinas nucleares na Jureia.[4]

A notícia sobre o plano de construção de duas usinas nucleares no litoral atlântico veio a público justamente no dia mundial do meio ambiente. Os principais jornais do Estado não perderam a ironia do evento. Uma das manchetes dizia: “Presente do governo aos ambientalistas no dia mundial do meio ambiente: usinas nucleares em São Paulo” (Queiroz, 1992: 76). Em pouco tempo, os ambientalistas que militavam em Trindade voltaram suas atenções também para a Jureia. Como resultado, o governo militar cedeu à pressão da opinião pública ambientalistas e abandonou em 1985 o plano de construção das usinas nucleares.

Dois anos antes da desistência do governo militar de levar adiante o plano, Franco Montoro assumira o governo de São Paulo sob a promessa de não aceitar as usinas nucleares no Estado. Ele já havia aberto os “órgãos públicos à participação dos movimentos sociais e populares, entre eles o ambientalismo” (Queiroz, 1992: 77), e muitos dos ambientalistas ligados ao conflito de Trindade passaram a ocupar cargos na Secretaria do Interior e, posteriormente, na Secretaria do Meio Ambiente. Com isso, o movimento ambientalista se aproximou da burocracia do estado de São Paulo e passou a contar com “grupos mais atuantes nos canais legais e institucionais” (Queiroz, 1992: 80). Dentro dessa atuação institucional, surgiu a proposta de criação de uma Estação Ecológica no local previsto para a instalação das usinas.[5] A Estação Ecológica era vista como uma maneira de proteger a maior área de Mata Atlântica remanescente do Estado de São Paulo contra futuras propostas predatórias para a região.

Neste contexto surgem a Associação em Defesa da Jureia (1986) e a SOS Mata Atlântica (1987). Essas entidades assumiram a hegemonia no movimento ecológico no Estado de São Paulo, com acesso amplo à mídia, trabalho em conjunto com a administração estatal, profissionalização e apoio empresarial. Personagens importantes deste ecologismo institucionado participaram ativamente dos órgãos governamentais e não-governamentais responsáveis pela criação da Estação Ecológica Jureia-Itatins, agrupando-se mais tarde na diretoria e conselho da SOS Mata Atlântica: empresários, jornalistas que ocupam cargos importantes nos maiores jornais do estado (Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo), ex-diretores de órgãos públicos federais (Paulo Nogueira Neto da SEMA e José Pedro de Oliveira Costa do CONSEMA e SMA-SP) e ambientalistas como Fábio Feldman e João Paulo Capobianco (Queiroz, 1992: 81)

Assim, o movimento ambientalista de São Paulo, organizado principalmente através de organizações não governamentais (ONGs), adquiriu influência tanto no Estado como na iniciativa privada. Para a implementação de seus planos de criação da Estação Ecológica, faltava-lhe, contudo, contar com o apoio das comunidades caiçaras de Iguape e Peruíbe.[6] Durante o processo de planejamento e implementação, muitos desses ambientalistas e funcionários públicos foram à Jureia e conversaram com caiçaras sobre a proposta. Os Caiçaras foram induzidos a ver na criação da Estação Ecológica a garantia definitiva de seus territórios contra as ameaças da especulação imobiliária e das usinas nucleares, recebendo promessas verbais de que aquela área seria resguardada de ações humanas predatórias, tornando-se um “santuário ecológico” para que eles tivessem seus ambientes protegidos e pudessem reproduzir seus meios de vida. Vários depoimentos de caiçaras que colaboraram com as atividades de implantação da Estação Ecológica corroboram essa versão.

No entanto, depois de criada a Estação Ecológica Jureia-Itatins, em 1986, pelo decreto n° 24.646/1986, os Caiçaras da Jureia passaram a ter seus direitos cerceados de várias maneiras pela administração da unidade de conservação. A parceria entre as comunidades tradicionais e ambientalistas, que havia sido marcante no caso de Trindade, e que havia pautado as negociações de ambientalistas com Caiçaras para criação da Estação Ecológica Jureia-Itatins, entrou em colapso. Nessa época, muitos dos ambientalistas que ajudaram a planejar e implementar a Estação Ecológica continuavam exercendo influência na política estadual e passavam por um ponto de inflexão em suas visões políticas, adotando um discurso ambiental cada vez mais excludente quanto à possibilidade de permanência de comunidades tradicionais em Unidades de Conservação (Paoliello, 1992). Nesse discurso, as unidades de conservação não eram mais entendidas como uma modalidade de reforma agrária que conciliaria direitos de povos e comunidades tradicionais com metas de conservação ambiental. Não havia mais espaço para a presença de comunidades tradicionais nos ambientes da Jureia. Antes vistos como aliados pelos Caiçaras, os ambientalistas ligados à burocracia do Estado de São Paulo passaram a ser considerados como traidores pelos militantes caiçaras. Nas palavras de um líder local, Dauro do Prado, a história se resume da seguinte maneira:

Veio a Gomes de Almeida Fernandes, uma empresa que disse que era dona das terras da região e que ia transformar nosso território em loteamento para uma cidade de 70 mil habitantes. Só que em seguida apareceu a Nuclebrás, com um projeto de usina nuclear que transformou a Juréia em área de interesse e segurança nacional. E aí vieram os ambientalistas, dizendo que a Juréia ia virar uma usina atômica e que todo mundo ou ia ser expulso ou ia morrer por causa da usina. A proposta desses ambientalistas é que ali virasse um santuário ecológico. E a gente acolheu essas pessoas. Mas em 1986 foi criada a Estação Ecológica Jureia-Itatins e essas mesmas pessoas disseram que a gente não podia mais roçar, caçar, fazer mais nada daquilo que sempre fizemos. Foi aí que a gente montou uma associação e começou a brigar pelos nossos direitos (Almeida et al 2013: 4)

3. Os meios de vida tradicionais

Fazemos aqui uma breve descrição dos meios de vida tradicionais das comunidades caiçaras da Jureia, fundamentada em trabalhos anteriores sobre os habitantes da região (Araujo, 2007; Queiroz, 1992; Monteiro, 2012; Nunes, 2003; Panzutti, 2002) e em narrativas que coletamos em pesquisa de campo. A intenção é dar um quadro geral sobre os meios de vida tradicionais – entendidos como os meios técnicos e práticas sociais necessárias para promover a relação do homem com a natureza (Candido, 2010) – antes de entrarmos nas restrições impostas com a criação da Estação Ecológica e seus impactos sobre o cotidiano caiçara.

Um elemento central da sociabilidade de caiçaras são as roças (Peroni 2004, Adams 2000, Schmidt 1958), As roças podem ser entendidas como um fato social total, ou seja, um fato social com dimensões não apenas econômicas, mas que abrangem a vida social e o parentesco, a religião e as festas, a tecnologia e os conhecimentos tradicionais (Mauss, 2003). Antes da criação da Estação Ecológica, as roças caiçara eram feitas em caráter itinerante, geralmente com plantações de arroz, milho ou mandioca. Estes produtos desempenhavam um papel fundamental não só na dieta, mas também nas trocas locais de mantimentos e no comércio de pequena escala entre os Caiçaras e as cidades mais próximas. A fala de um morador antigo da Cachoeira do Guilherme ilustra o modo como as roças eram realizadas:

Você ia lá, roçava a roça. Na linguagem de hoje é bosquear. Fazia aquele bosque e depois deixava seca ali aquela brusca. Chamavam de brusca aqueles matos baixos. Todas aquelas plantas pequenas, rasteiras, roçava, cortava tudo. Daí deixava uns dias e daí derrubava a madeira maior: derrubava, deixava secar, queimava e fazia a plantação. […] Plantava arroz, milho, no lugar de várzea. No lugar mais alto, morro, desmonte, plantava-se mandioca, milho, batata, cará, essas leguminosas. (Seu Irácio Tavares, 68 anos, Cachoeira do Guilherme, atualmente morador de Iguape. Janeiro 2012. Em Almeida et al 2013: 6)

As roças podiam ser feitas tanto entre parentes como entre amigos e a articulação de vários grupos familiares para o trabalho na terra constituía um fator de solidariedade social fundamental. Os ajutórios e mutirões — segundo a denominação local — eram os principais modos de articulação coletiva para a realização das roças. Eles funcionavam por meio da troca da força de trabalho, sem estabelecerem trocas monetárias, e de modo a garantir o manejo completo das roças. As épocas adequadas de plantio e a necessidade de cada agricultor determinavam o momento de roçar. A organização coletiva se incumbia de sequenciar as trocas de trabalho, ordenando o recebimento e o pagamento de ajudas ao longo do tempo. A diferença principal entre o ajutório e mutirão estava na forma de convocação dos parceiros de trabalho. No primeiro, os ajudantes eram chamados via convites em suas próprias casas ou em encontros eventuais. No segundo, havia geralmente um chamado mais geral nas ocasiões de encontro coletivo, ficando o aceite em caráter voluntário.

Tanto o ajutório, quanto o mutirão estavam ligados à principal atividade festiva dos Caiçaras da Jureia, o fandango (Rodrigues 2013, Pimentel 2006), bailes nos quais tocavam-se instrumentos localmente fabricados como a viola caiçara, a rabeca e o pandeiro, acompanhados músicas próprias do fandango. Estes bailes podiam ser realizados tanto em ocasiões de aniversário ou casamento, quanto em comemorações ao término do trabalho na lavoura. Quem oferecia o fandango, isto é, organizava a festa e preparava as bebidas e comidas, era quem solicitava o apoio dos outros Caiçaras por um ou mais dias de trabalho, seja nos ajutórios, seja nos mutirões. O fandango é uma manifestação cultural de grande importância social. Ele compreende um complexo de músicas, letras e danças que, segundo a antropóloga Carmem Lúcia Rodrigues, constituem um prisma pelo qual podem ser “desveladas múltiplas dimensões do modo de ser caiçara e de sua relação com o território” (Rodrigues, 2013: 7). Estendendo-se no litoral atlântico do Rio de Janeiro ao Paraná, o fandango caiçara foi registrado como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2012. [7]

Além desta articulação com o fandango, as roças caiçaras eram e são fundamentais, evidentemente, para a própria alimentação das famílias, dado que grande parte de sua produção é destinada ao consumo interno das comunidades. Os produtos das roças formam, aliados ao peixe de água doce ou salgada, a base nutricional dos Caiçaras, ambas atividades realizadas no interior das comunidades caiçaras, que se localizam a longas distâncias das cidades e com dificuldades de locomoção (Peroni, 2004).

Este afastamento em relação à cidade resultou na reelaboração constante de técnicas tradicionais de agricultura, de modos de seleção e conservação de alimentos, de conhecimento de variedades de plantas e sua dinâmica evolutiva, dos ciclos naturais vinculados às exigências ambientais, dos efeitos de plantas para uso medicinal e seu preparo, além de técnicas associadas à pesca, de modo que a vida no espaço compreendido entre o mar e os morros cobertos de floresta pudesse garantir suas necessidades alimentares.

Este conhecimento tradicional congrega diversas técnicas, aplicadas na relação com a fauna e a flora, os quais permitem o sustento das famílias caiçaras. Localmente, as pessoas não apenas utilizam a natureza à sua disposição para plantar e se alimentar, mas também a transformam, multiplicando suas variedades por meio de experimentos realizados ao longo de muitas gerações no trabalho com a terra, os rios e o mar. Há diversos exemplos de comunidades caiçaras que se apresentam como verdadeiros núcleos de pesquisa que poderiam ter um melhor reconhecimento científico. Sua contribuição para o desenvolvimento de outras variedades de produtos alimentares mais resistentes e com outras propriedades nutricionais ainda carece de apoio e proteção do poder público (Peroni 2004).

É preciso reter aqui a relação íntima e dinâmica entre o uso de ambientes naturais múltiplos, o trabalho nas roças, suas formas de organização coletiva, o fandango enquanto atividade de solidariedade social e a alimentação. O modo de vida tradicional caiçara se fundamentava em atividades variadas, realizadas em múltiplos ambientes (do mar ao morro), e que conectavam diretamente a alimentação com as relações interpessoais, o parentesco, a organização produtiva, as festividades e as expressões culturais. Como foi dito por Antonio Candido para os caipiras paulistas, em contextos tradicionais de meios de vida, a alimentação pode ser vista como “o centro de um dos mais vastos complexos culturais, abrangendo atos, normas, símbolos, representações” (Candido, 2010: 34).

4. O cerceamento dos meios de vida pelo Estado

Tendo feito menção aos meios de vida tradicionais, apontamos agora alguns exemplos da atuação direta do estado e seus impactos sobre as comunidades caiçaras após a criação da Estação Ecológica Jureia-Itatins. A atuação do estado se dá principalmente através do órgão responsável pela gestão da Estação Ecológica Jureia-Itatins (EEJI), a Fundação Florestal, mas a compreensão da administração pública da Estação Ecológica passa também por um olhar mais amplo sobre ações políticas e jurídicas que resultam em situações de coerção e restrição aos meios de vida das comunidades tradicionais. Segundo dados levantados por Nunes (2003), a partir de estudos da própria Secretaria do Meio Ambiente e informações dos moradores, em 1991 havia 365 famílias na região onde hoje se encontra a Estação Ecológica Jureia-Itatins. Em 2002 este número havia decrescido para 200 famílias, o que representa a evasão de 45% das famílias ao longo de 11 anos. Procuraremos mostrar como esse decréscimo no total de habitantes se relaciona com a política de cerceamento dos meios de vida tradicionais.

Com a criação da EEJI em 1986, o governo do estado de São Paulo providenciou recursos para implantação da infraestrutura operacional da Estação Ecológica, compreendendo a construção de postos de fiscalização, um quartel da polícia florestal e alojamentos de pesquisa. Esses alojamentos também teriam como objetivo apoiar a fiscalização de possíveis atividades consideradas ilegais dentro da Estação Ecológica. Uma vez que a orientação política por trás da criação da Estação Ecológica era a de incompatibilidade entre presença humana e conservação da natureza, iniciou-se neste período um forte processo de repressão às atividades tradicionais dos caiçaras, como proibições de atividades de caça destinada à alimentação, restrições aos tamanhos e áreas dos roçados, proibições do corte de palmito para alimentação e comercialização, fechamento de escolas e postos de saúde, restrições às reformas nas estradas, proibição do turismo de base comunitária, proibição do corte de qualquer árvore para fins de reformas de casas e construção de canoas sem a autorização emitida por um técnico, exigência de permissão para a reforma de casas e proibição das atividades de apicultura, além de outras restrições (Queiroz, 1992; Monteiro, 2012; Nunes, 2003).

A partir da imposição de restrições, famílias caiçaras tem enfrentado dificuldades para garantir sua subsistência, e muitas delas deixaram suas comunidades em busca de emprego nas periferias de Iguape e Peruíbe. Exploraremos abaixo alguns exemplos emblemáticos das imposições restritivas aos meios de vida, entendendo que o conjunto de medidas repressivas adotados pela administração da Fundação Florestal representa desrespeito aos direitos de Caiçaras da Jureia, expressos na legislação e em tratados internacionais[8].

4.1 As proibições às roças

As roças tornaram-se ilegais com a criação da Estação Ecológica Jureia-Itatins, em 1986, e assim permaneceram até 1992, quando os Caiçaras conseguiram, após uma intensa rodada de negociações com a Secretaria do Meio Ambiente, permissões para abrir suas roças. Não obstante, o SMA criou várias restrições para o plantio (Monteiro, 2012: 207). No período da proibição completa das roças muitos moradores foram multados por fazerem suas roças e a maioria deles interrompeu a sua realização com medo de represálias do órgão gestor. Citaremos aqui dois exemplos em que lideranças importantes tiveram negado o direito de trabalhar pela subsistência e reprodução de seus meios de vida, servindo de exemplo, para os demais, da influência que a Fundação Florestal passaria a ter sobre os meios de vida após a criação da EEJI.

Sr. Sátiro, morador da Cachoeira do Guilherme e já falecido, foi multado em 1990 por ter feito uma roça. Ele foi, durante muitos anos, a principal liderança política e religiosa da Jureia. Reconhecido por ser curandeiro e conhecedor profundo das ervas medicinais, era expoente de uma religião peculiar das comunidades caiçaras, fundamentada em um sincretismo entre espiritismo kardecista, catolicismo e mitos da floresta. Sua fala explicita melhor a situação imposta a ele e seu povo:

Aqui seria muito bom se a gente tivesse liberdade. Agora, só ficamos olhando para a preservação. Não temos médico e vivemos só de ervas. Quando alguém fica doente, vamos buscar remédio no mato. Somos um tipo de índio, né, a gente vive da natureza. É até perigoso sairmos daqui, pois somos acostumados. Na cidade nós ficamos tristes, somos desacostumados e vamos morrer […] Outro dia eu fiz um mutirão e eles vieram e me multaram. Agora, como é que eu vou pagar isso? Fomos em Iguape e falamos com um homem que a gente compra as coisas dele e ele nos compra arroz. Este homem foi na polícia conosco e falou para eles rasgarem aquela multa, nós não íamos dar conta de pagar o que devíamos se tivesse a multa. (Queiroz, 1992: 179)

Outro exemplo é o do Sr. Belizário, cuja casa era conhecida por ser um importante centro dos bailes de fandango, e sua família reconhecida como uma das mais antigas da Jureia (Carvalho & Schmitt, 2010). Ele foi multado pelo estado por fazer sua roça. Indignado, entrou com recurso na justiça comum com ajuda de seus filhos. Depois de muito tempo de espera, seu recurso foi julgado improcedente. Anos depois, se livraria da pesada multa através de um atestado de pobreza.

Os exemplos de Sr. Sátiro e Sr. Belizário são ilustrativos da intervenção às roças, portanto, de uma atividade tradicional articulada socialmente com a economia, a cultura e a alimentação local. Como diz Monteiro (2012), podemos interpretar as pesadas multas e sanções aplicadas ao Sr. Belizário e ao Sr. Sátiro como fator de intimidação das comunidades por parte da Fundação Florestal. Se homens de prestígio local, que eram alguns dos principais representantes das comunidades caiçaras, estavam sujeitos a serem multados, todos poderiam ser punidos. Assim, estes casos e o aumento da fiscalização da Fundação Florestal por meio da instalação de alojamentos de fiscalização e pesquisa nas comunidades eram interpretados como um recado claro de coerção e desestímulo para a abertura de novas roças.

As multas sobre roçados, que incidiram tanto sobre lideranças religiosas e figuras importantes da sociabilidade comunitária como sobre outras famílias, funcionaram como um fator de desagregação comunitária para os Caiçaras, por intervir em um elo fundamental da dinâmica social deste povo. Isso é crucial para entendermos uma das razões pelas quais as comunidades de Sr. Sátiro e Belizário, Grajaúna e Cachoeira do Guilherme, respectivamente, estão hoje quase totalmente desabitadas. Ao proibir as roças, a Fundação Florestal proibiu os Caiçaras de viver como caiçaras, tal como eles próprios entendiam e entendem o modo de viver caiçara. Como já foi dito, não se tratava apenas de fonte de meios de subsistência, mas de uma cadeia de sociabilidade, organização produtiva, sistemas simbólicos e conhecimentos envolvidos com a atividade de roças tradicionais.

Alguns anos após a proibição das roças, a pressão sobre os meios de vida era tamanha que caiçaras se organizaram para pressionar a Fundação Florestal pela liberação de pequenos espaços de plantio que garantissem ao menos a subsistência das famílias. Assim, pressionada pelo risco imposto à segurança alimentar das famílias caiçaras, a Fundação Florestal permitiu que roças seguissem sendo feitas em locais já abertos, estipulando porém que não poderiam ser abertos roçados novos em áreas com vegetação já desenvolvida, mesmo que se tratasse de antigas capoeiras. Embora essa solução não fosse a mais adequada, por não se coadunar ao sistema agrícola tradicional que prevê períodos de pousio com replantio, a medida paliativa tem ajudado a sustentar parte das famílias caiçaras. É importante frisar que a proibição das atividades tradicionais não foi acompanhada do oferecimento de alternativas de cultivo e alimentação às comunidades.

4.2 O fechamento das escolas

Sem a possibilidade das roças, a educação dos filhos e o assalariamento se mostravam para os Caiçaras como uma alternativa de subsistência. No entanto, outro fator importante que dificultou a permanência das famílias caiçaras na Jureia foi o fechamento de quase todas as escolas por conta de uma medida da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo tomada durante o primeiro mandato do governo de Mario Covas (1995-1998). A medida determinava que as escolas no estado de São Paulo com menos de quinze alunos por turma fossem fechadas. Tratava-se de uma política extremamente prejudicial a núcleos populacionais reduzidos, concentrando o ensino nos centros urbanos de maior porte.

Uma vez que a criação da Estação Ecológica não trouxe para as comunidades caiçaras o reconhecimento de seus direitos enquanto coletividade diferenciada, não se discutiu para elas uma educação também diferenciada, ou ao menos condições de transporte para os alunos que estivessem adequadas à realidade das comunidades tradicionais da Jureia. Assim, o corte de recursos financeiros para as pequenas escolas da Jureia fez com que várias delas encerrassem suas atividades. Como consequência, assistiu-se à evasão de várias famílias de suas comunidades para cidades vizinhas, onde seus filhos pudessem estudar. A relação entre o fim das escolas e a emigração dos Caiçaras é ressaltada por vários moradores. Um deles, entrevistado na época, disse:

Faz treze anos que estou aqui na Barra, mas a gente tem casa lá, a gente cuida lá, a gente tá aqui por causa da escola. Não tinha escola. Foi saindo todo mundo. Não tinha mais escola e aí a gente foi obrigado a sair também, porque ia ficar sem as crianças estudar e sem serviço — acabando tudo, acabando a comida porque não podia plantar. Foi acabando, se não planta um ano, no outro ano não tem e aí fica difícil, por isso nós tivemos que sair (Nunes, 2003: 129)

A situação das escolas impulsionou as organizações comunitárias a formularem um projeto de escola caiçara em 2001. O projeto pedagógico da Escola Caiçara da Jureia (ECJ) foi elaborado pelas pesquisadoras em educação Alik Wunder (UNICAMP) e Luísa Alonso (UNESP), que buscaram contribuir a partir de suas experiências de formação de escolas em comunidades indígenas. O projeto contou com a participação de vários moradores e foi construído a partir de diversas reuniões comunitárias. A Associação do Jovens da Jureia (AJJ) apresentou a proposta da ECJ para a delegacia estadual de ensino e para o Instituto Florestal, que reconheceram a importância da iniciativa, mas não houve disponibilização de recursos e sequer a licença para efetivar o projeto (Nunes, 2003: 132).

Mesmo assim, no início de 2002, os moradores decidiram fazer a escola em um antigo centro espírita da Jureia, na Cachoeira do Guilherme. A escolha se deu tanto pela importância religiosa do centro para os Caiçaras, quanto pela sua localização central. Neste lugar, a escola poderia atender diversas comunidades que não tinham acesso à educação. A reforma do centro foi feita pelos próprios moradores e contou com o apoio do Instituto de Energia e Eletrotécnica (IEE) em parceria com o Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras (NUPAUB), ambos da USP, que financiaram a implantação de um sistema de geração de energia. A escola contou ainda com o apoio da prefeitura de Iguape, que financiou os primeiros materiais didáticos e ferramentas para as aulas, como giz e lousa.

O início das aulas aconteceu em 12 de agosto de 2002. O fundamental aqui é ressaltar o caráter da escola, pensada enquanto uma escola caiçara. Além de tentar solucionar o problema do fechamento das escolas nas comunidades, que as assolava há mais de 10 anos, a escola foi formulada para que as crianças tivessem a oportunidade de fortalecer seus vínculos com a cultura caiçara. O plano pedagógico previa uma participação frequente dos pais dos alunos nas aulas, que atuariam também como professores. Neste sentido, a escola não se limitaria a repassar o conteúdo curricular do sistema educacional brasileiro. Além disso, as crianças aprenderiam práticas ligadas às especificidades dos meios de vida caiçara, tais como construir canoas, fazer roça, fazer farinha, dançar fandango, tocar e construir instrumentos musicais caiçaras, além do conhecimento de plantas medicinais e dos hábitos de animais da floresta.

Embora elaborada a partir de um projeto pedagógico que contou com o apoio de duas das mais renomadas instituições de ensino e pesquisa do país, a escola caiçara encontrou várias dificuldades para se manter. A falta de recursos financeiros, o completo descaso das instituições gestoras da EEJI, e um posterior fim do apoio vindo da prefeitura de Iguape, determinaram o fechamento da escola em 2004. Além disso, a falta de apoio oficial fez com que muitas famílias não matriculassem seus filhos na escola, com medo de que a sua formação não fosse reconhecida posteriormente.

4.3 A obstrução de caminhos

Mesmo com a proibição das roças e o fechamento das escolas, algumas famílias caiçaras têm conseguido se manter na Estação Ecológica, quer através de atividades ligadas ao turismo, quer sobrevivendo com aposentadorias. Como forma de pressionar os meios de vida também dessas famílias, há uma política de fechamento de caminhos utilizados por elas para que se mudem para outros locais. A obstrução de caminhos tradicionais, ou caminhos de servidão, como são chamados localmente, é também emblemática da administração da Fundação Florestal na Jureia. Mais do que isso, a obstrução dos caminhos revela as contradições entre o discurso de conservação da Fundação Florestal e suas práticas por vezes predatórias, tanto da cultura caiçara como da natureza, e ajuda a compreender os objetivos políticos por trás de suas ações.[9]

Retomando um pouco o passado, em 1993 a Fundação Florestal construiu um de seus alojamentos no Grajaúna na frente da casa de uma família caiçara que residia há décadas no local. O alojamento foi feito em um espaço anteriormente utilizado por crianças para brincar e onde se localizava o campo de futebol da comunidade, uma das principais atividades de lazer. Além disso, o alojamento foi construído no único caminho entre várias comunidades e o mar, causando indignação dos Caiçaras, que novamente se organizaram para criticar uma medida da Fundação Florestal que não havia sido negociada com eles.

Mais uma vez, a Fundação Florestal cedeu o mínimo possível e foi construída uma passagem por dentro do alojamento, pela qual os Caiçaras precisariam atravessar sob os olhos dos guarda-parques, toda vez que quisessem acessar suas casas ou passar por ali depois de um dia de pesca. Por outro lado, o caminho por dentro do alojamento se tornava a garantia de fiscalização e coerção de atividades que a Fundação Florestal considerava impróprias. A Fundação poderia ter informação constante sobre o fluxo de pessoas e coisas e controlá-los como bem entendesse. Com isso, para evitar um maior transtorno às suas atividades, os Caiçaras passavam ao lado do alojamento, margeando um rio.

A Fundação Florestal impediu ainda que as famílias que residiam próximas ao alojamento ficassem por ali como faziam antes. Para garantir que os moradores ficassem distantes, um cachorro era mantido no alojamento, chegando a ferir gravemente a mão de um morador caiçara. Este ataque gerou um processo contra a Fundação Florestal, que foi obrigada pela justiça a tirar o cachorro de lá.

Embora protestem e consigam pequenas concessões por parte da Fundação Florestal, os moradores caiçaras são obrigados a viver até hoje com a presença do alojamento à frente da habitação no Grajaúna. Além disso, em agosto de 2014, a Fundação Florestal decidiu ampliar e reformar o alojamento. Isto gerou uma revolta em muitas famílias caiçaras, que, com a ajuda das associações comunitárias, União dos Moradores da Jureia e Associação dos Jovens da Jureia, decidiram ocupar a obra para exigir um diálogo com o órgão gestor. Uma das principais reclamações era que a Fundação Florestal não os havia avisado previamente sobre as obras que pretendia executar, contrariando o Decreto nº 6.040 que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais e prevê a efetiva participação das comunidades tradicionais nos processos decisórios relacionados a seus direitos sociais e territoriais. Para os Caiçaras, esta ampliação e reforma não podia continuar enquanto os responsáveis com poder de decisão sobre o rumo das obras não dialogassem com eles. Foi feito um abaixo-assinado como forma de construir um instrumento de apoio às famílias diretamente afetadas, que contou com mais de 2400 assinaturas[10], e com o apoio de figuras importantes do cenário científico brasileiro, como a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, para quem a atitude da Fundação Florestal lembrava práticas da ditadura.[11]

Além da atuação autoritária da Fundação Florestal, ressaltamos que vários aspectos da obra apontavam para a sua ilegalidade, principalmente, no que diz respeito à observância das leis ambientais. Qualquer obra realizada em unidades de conservação necessita de um Estudo de Impacto Ambiental.[12] Considerando que o órgão gestor, à época do impasse, realizava 3 obras na região (Grajaúna, Rio Verde e Arpoador) e que suas obras executavam escavação no solo para fazer a fundação da construção, e que estas trazem materiais de fora da estação ecológica que não fazem parte do ambiente da Jureia, alguns deles sintéticos, caberia a este órgão comprovar que tais atividades não causam danos ambientais.

O licenciamento para as obras precisa, legalmente, ser apresentado, não podendo ser um documento sigiloso, dado que é de interesse da sociedade a ciência de que tais obras não causam impactos e desequilíbrios ecológicos.[13] Mesmo organizados em um movimento de resistência às obras, os Caiçaras nunca tiveram acesso a esses documentos, presumindo que talvez eles não existam. Além de afetarem os Caiçaras do ponto de vista sociocultural, as obras que visam dificultar a circulação das famílias desrespeitam a própria proteção do meio ambiente, que deveria ser promovida pela Fundação Florestal.

Cabe ainda a referência de que a Jureia contem importantes áreas com sítios arqueológico (Cali, 1999). A Fundação Florestal não contactou o órgão responsável por este patrimônio arqueológico, o IPHAN, para que este pudesse se pronunciar sobre a eventual presença de sítios arqueológicos que podem ser destruídos com as obras. Ainda podemos mencionar a denúncia feita por vários moradores de que para a realização das obras foram usados venenos de rato e lãs de vidro para a cobertura dos alojamentos. Segundo eles, muitos já encontraram animais mortos, como cachorro do mato, e presenciaram a dispersão da lã de vidro pela floresta e pelos rios. Eles dizem terem encontrado este material na barriga de vários peixes. Neste sentido, é importante lembrar que, se tratando de possíveis danos ao meio ambiente, cabe a aplicação do princípio de precaução e a inversão do ônus da prova, e que, em consequência disto, a Fundação Florestal necessitaria provar que seu empreendimento não acarretou danos ambientais.[14]

O movimento organizado pelos moradores para defender seus direitos em agosto de 2014 conseguiu que quatro comitivas de representantes da Fundação Florestal fossem para o Grajaúna dialogar. Em uma dessas ocasiões, um dos gestores da Fundação Florestal, tentou persuadir os moradores sobre a importância da obra para o meio ambiente e para o país. Ele afirmou que muitas descobertas no campo de fármacos poderiam sair da Floresta da Jureia a qual representava, principalmente, um patrimônio da humanidade.[15] Estes argumentos objetivavam justificar a realização das obras, independentemente dos danos causados diretamente aos moradores.

Na última das reuniões, o órgão estadual também contou com o apoio da polícia ambiental e civil, além de um delegado de Iguape, o que mostra que, mesmo executando uma obra que não comprovou a observância das legislações vigentes, a Fundação Florestal conseguiu mobilizar o aparato coercitivo do estado em seu favor e contra a resistência caiçara em defesa de seus meios de vida. Mesmo sob a presença da violência legítima do estado, a mobilização caiçara para ocupação do Grajaúna conquistou a suspensão das obras e uma declaração da Fundação Florestal em ata desta última reunião se comprometendo a avisar os moradores quanto às próximas medidas “administrativas” nas comunidades.

Considerações finais

Os exemplos de atuação da Fundação Florestal na Jureia mostram bem como a unidade de conservação foi planejada para que a presença humana não fosse permitida. Sob a perspectiva de governo orientada pelos ambientalistas radicais, logo após a criação da Estação Ecológica, as roças foram completamente proibidas e, desde então, políticas do governo estadual seguem impondo restrições e dificuldades às famílias caiçaras, impossibilitando a realização dos meios de vida tradicionais e forçando a retirada das famílias para outras áreas.

Como enunciado na introdução deste trabalho, nos últimos anos os caiçaras tem tentado pelas vias legais e institucionais a recategorização dos territórios onde vivem. Após se depararem com as restrições impostas pela questão ambiental, o movimento caiçara tem contado com a assessoria de cientistas renomados das mais diversas áreas e tentado reconstituir seus meios de vida tradicionais aliando sua permanência no território com uma política de conservação da natureza.[16] Muitos trabalhos acadêmicos já demonstraram essa possibilidade, incluindo trabalhos realizados em áreas de Mata Atlântica (Adams, 2000; Dean, 1996). Alguns deles chegam a defender que a presença humana com atividades de baixo impacto ambiental acelera a diferenciação das espécies e gera mais biodiversidade ao causar pequenas perturbações nos ambientes (Padoch, 2010, Balée, 2009).

No entanto, a abertura de diálogo tem encontrado resistência principalmente por parte do movimento ambientalista de São Paulo, cuja gênese foi descrita por Rubens Queiroz em Atores e Reatores na Jureia: Ideias e Práticas do Ecologismo (1992). Muitos dos principais nomes citados em sua dissertação, ligados ao movimento de resistência em Trindade na década de 1970 e à ocupação de cargos públicos na estrutura do estado, hoje estão envolvidos com o caso da Jureia e defendendo a retirada da maior parte das famílias caiçaras. Frente à pressão do movimento de resistência caiçara, ambientalistas presentes na Audiência Pública que discutiu a recategorização defenderam que fossem criadas duas pequenas Reservas de Desenvolvimento Sustentável para as famílias caiçaras, ignorando a proposta dos Caiçaras de criação de quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável. Dentre os presentes estavam dois dos principais ambientalistas citados por Rubens Queiroz, João Paulo Capobianco e Fábio Feldman, o que sugere a continuidade do projeto restritivo para a Jureia iniciado nos anos 1980. Acreditamos que a Fundação Florestal haja de acordo com a política de conservação orientada pelos ambientalistas desse movimento.

Mas, mais do que a quantidade de Reservas de Desenvolvimento Sustentável, entendemos que durante a Audiência Pública e em outras rodadas de negociação das quais fizemos parte como assessores dos Caiçaras, a relutância dos ambientalistas em relação à permanência das famílias caiçaras em várias localidades da Estação Ecológica se fundamentava em pressupostos dogmáticos sobre os impactos da presença humana em unidades de conservação. Em momento algum foi possível um diálogo real sobre um plano piloto que poderia se constituir com um conjunto de metas e ajustamentos de modos de utilização dos territórios que aliasse presença humana, respeito às tradições caiçaras e conservação ambiental.

Sobre este aspecto, é importante ressaltar que os Caiçaras tem buscado diversas parcerias com as mais renomadas universidades do país para o desenvolvimento de técnicas de uso dos territórios que aliam conhecimento tradicional e científico. Além do já citado exemplo de uma pedagogia caiçara construída em parceria com pesquisadores da UNICAMP e da UNESP, os Caiçaras têm artigos científicos sobre presença humana e diversidade biológica publicados em parceria com outros pesquisadores (Fonseca & Prado, 2008). Participam, também, em projetos de cooperação científica em desenvolvimento com a USP, a UFABC e a UNICAMP.[17]

Ou seja, além de tentar as vias legais e institucionais para discutir a recategorização da Estação Ecológica, os Caiçaras da Jureia tem realizado um esforço para a elaboração de técnicas e conhecimentos de baixo impacto ambiental que a atuação do governo estadual, da Fundação Florestal, e dos ambientalistas radicais que os informam, tem desconsiderado. A questão da Jureia, portanto, não tem sido tratada oficialmente como uma questão de conservação ambiental pautada por uma avaliação técnica. Há um componente autoritário informado por uma visão restrita de conservação ambiental que não reconhece o esforço caiçara de diálogo, que nos últimos anos buscou se adequar às linguagens jurídicas e científicas legitimadas pelo Estado.

O evitamento de um debate científico amplo por parte do governo do estado e dos ambientalistas é uma forma velada de continuar com as expulsões por cerceamento dos meios de vida. Primeiro foram as proibições e restrições às roças, que impactaram a segurança alimentar, depois o fechamento das escolas, o que impossibilitou o acesso de um direito social, e agora a obstrução de caminhos. Considerando isto, há claramente uma política deliberada de expulsão das famílias caiçaras pela criação de entraves ao seu desenvolvimento social e, quanto mais tempo os Caiçaras demorarem para serem ouvidos e terem direitos reconhecidos, mais famílias irão deixar a região e efetivar aos poucos o plano restritivo à presença humana colocado pelos ambientalistas durante o planejamento da Estação Ecológica. A postura do estado de São Paulo é tão nociva às comunidades caiçaras que força a saída das famílias sem sequer reconhecer sua distintividade cultural ou pagar indenizações, por entender que as saídas acontecem por livre e espontânea vontade.

Defendemos que é preciso realizar um debate amplo e pesquisas científicas detalhadas que determinem o real impacto das comunidades caiçaras sobre a Jureia e que ajudem a pautar uma negociação para aliar conservação da natureza com respeito aos direitos das comunidades caiçaras. Enquanto isso não acontecer, os ambientalistas seguirão ganhando silenciosamente a disputa que iniciaram com as comunidades caiçaras através de uma traição política.

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Willelms, Emilio e Gioconda Mussolini. Buzios Island. A Caiçara Community in Southern Brazil. Seattle e Londres: University of Washington Press, 1952.

[1]          Caiçaras são habitantes tradicionais do litoral das regiões Sudeste e Sul do Brasil, associados a uma “cultura caiçara” (Willelms 1952:104-106) dotada de aspectos distintivos, como o fandango e um modo de vida que combina a pesca artesanal costeira, a agricultura familiar e extrativismo vegetal (Mussolini 1982:226, Adams 2000:146; Rodrigues 2013).

[2]          Os dois argumentos encontram-se registrados no site da S.O.S. Mata Atlântica. <http://www.sosma.org.br/11722/audiencia-publica-sobre-a-jureia-termina-com-consenso/http://www.sosma.org.br/11708/patrimonio-ameacado-jureia-esta-em-risco/ > Acesso em 19.09.2014.

[3]          Em particular, o argumento ecológico invocava a necessidade de manter a estreita faixa litorânea que conecta a Barra do Uma e a localidade de Grajaúna sem ocupação humana, como condição essencial para permitir os fluxos entre mar e os ecossistemas de mangues e Mata Atlântica (ver Figura 1). Contudo, essa faixa estreita é justamente aquela cuja ocupação humana é mais documentada nos últimos quatro séculos (é onde passa a “Trilha do Imperador” que servia de via de transito oficial no Império) O argumento não explicitado era a suspeita de que a faixa litorânea da Jureia seria convertida em um aglomerado de botequins para turistas. Esse argumento aparecia em conversas de bastidores, sem ser explicitado no debate público.

[4]          O Decreto Federal n. 84.771 de 4 de junho de 1980 declarou uma área de 23.000 ha, incluindo todo o maciço da Jureia, como região de utilidade pública para a construção de usinas nucleares (Presidência da Republica 1980);

[5]          Segundo Queiroz (1992), o projeto foi elaborado dentro do COSEMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), entidade composta por ambientalistas e ligado diretamente ao gabinete do governador, e dentro do SUDELPA (Superintendência de Desenvolvimento do Litoral Paulista), autarquia ligada à Secretaria do Interior.

[6]          . O movimento ambientalista promoveu um processo de convencimento da opinião pública que se beneficiou não apenas dos cargos ocupados no Estado e em empresas privadas, mas também do uso de meios de comunicação e de bancos como veículos e apoiadores da causa. Foram veiculadas mais de oito horas de comerciais em televisão em favor da implementação da Estação Ecológica Jureia-Itatins, bem como a criação de uma “conta ecológica” em um banco que repassava parte dos rendimentos para ações de conservação na Jureia (QUEIROZ, 1992: 83-84).

[7]          “O Fandango Caiçara é uma expressão musical-coreográfica-poética e festiva, cuja área de ocorrência abrange o litoral sul do estado de São Paulo e o litoral norte do estado do Paraná. Essa forma de expressão possui uma estrutura bastante complexa e se define em um conjunto de práticas que perpassam o trabalho, o divertimento, a religiosidade, a música e a dança, prestígios e rivalidades, saberes e fazeres. (…) Nos bailes, como são conhecidos os encontros onde há Fandango, se estabelecem redes de trocas e diálogos entre gerações, intercâmbio de instrumentos, afinações, modas e passos viabilizando a manutenção da memória e da prática das diferentes músicas e danças. O Fandango Caiçara é uma forma de expressão profundamente enraizada no cotidiano das comunidades caiçaras, um espaço de reiteração de sua identidade e determinante dos padrões de sociabilidade local.” http://portal.iphan.gov.br/

[8]          . Em particular, conforme já mencionado acima: Constituição (1988), artigos. 215 e 216; Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, principalmente artigos 6 e 16, ratificada pelo Decreto Legislativo n. 143 de 2002, e promulgada pelo Decreto Presidencial n. 051 de 19 de abril de 2004; Decreto n. 6.040 de 7 de fevereiro de 2007. Sobre a aplicabilidade da Convenção 169 às comunidades quilombolas e tradicionais, ver Ministério Publico Federal 2014.

[9]          . Várias das referências utilizadas nesta parte se embasam na carta intitulada Carta aberta em defesa da família Prado e caiçaras da Jureia, de Plácido Cali enviada em agosto de 2014 para Adriana Lima, uma das lideranças caiçaras da Jureia. Plácido Cali é arqueólogo e realizou para a Fundação Florestal o Plano de Manejo das Unidades de Conservação do Mosaico Jureia-Itatins. Parte I e Parte II: Diagnóstico do Patrimônio Cultural (2008).

[10]        Abaixo assinado: https://secure.avaaz.org/po/petition/Secretaria_do_Meio_Ambiente_do_Estado_de_Sao_PauloFundacao_Florestal_suspensao_da_obra_de_ampliacao_do_alojamento_e_dial/. Acesso em 16.09.2014.

[11]        As afirmações foram dadas para o jornal Rede Brasil Atual: http://www.redebrasilatual.com.br/radio/programas/jornal-brasil-atual/2014/08/fundacao-florestal-tem-postura-autoritaria-com-caicaras-diz-antropologa. Acesso em 16.09.2014.

[12]        Resolução CONAMA N° 428, de 17 de dezembro de 2010.

[13]        Constituição Federal, inciso IV, do artigo 225.

[14]        A inversão do ônus probatório é utilizada nas demandas ambientais por aplicação subsidiária do art. 6º, inciso VIII do Código de Defesa do Consumidor (1990) c/c com o art. 117 deste mesmo Diploma Legal.

[15]         As reuniões com a Fundação Florestal foram presenciadas por um dos autores deste trabalho, Rodrigo Ribeiro de Castro, que registrou e acompanhou o movimento de ocupação dos Caiçaras no Grajaúna.

[16]        A UMJ e AJJ realizaram junto com o Laboratório de Antropologia Territórios e Ambientes (LATA) da UNICAMP um trabalho dentro do projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil coordenado pelo professor Alfredo Wagner de Almeida (2013).

[17]        A Associação dos Jovens da Jureia realiza pesquisa sobre ecologia histórica, em projeto realizado sob a coordenação conjunta de Cristina Adams (EACH-USP), Helena França (Universidade Federal do ABC) e de Manuela Carneiro da Cunha, com colaboração de Mauro W. B. de Almeida (Universidade Estadual de Campinas): Projeto Ecologia Histórica: uma metodologia participativa.

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Sobre ajjureia

"Sou fruto da necessidade de defender os direitos, de gerar alternativas para melhoria de vida e de resgatar e divulgar a riqueza da cultura tradicional caiçara".
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2 respostas para CAMINHOS FECHADOS: COERÇÃO AOS MEIOS DE VIDA COMO FORMA DE EXPULSÃO DOS CAIÇARAS DA JUREIA

  1. Vanessa Marcondes disse:

    Olá a todos. Gostaria de saber se existe um e-mail para entrar em contato com os autores deste artigo. Estou pesquisando no doutorado sobre a luta política dos povos tradicionais caiçaras de Paraty pela educação escolar. A experiência de vocês me interessa muito. Seria possível um contato?

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